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A RAINHA DO
PARAGUAY
RECORDAÇÕES
DA VIAGEM A GUAIRA a sedutora
Elisa Alicia Lynch O COMANDANTE ROLIM DE MOURA - O POUSO DA ÁGUIA EM AQUIDABAN
Dom Pedro no Largo do antigo
Mercado Público - Porto Alegre
- 1865.
Em 1961
Tunico Barão, o gigante "DAD", (1)atendeu um pedido de Ondina Fontana
Barão: conhecer as lendárias Cachoeiras de 07 Quedas, antes que fossem
tragadas pelo Lago de Itaipu. Era o mês de julho, mas não fazia frio
naquelas paragens de Indianópolis e depois de alguns puxões-de-orelha
seguidos de sérias advertências aos filhos Daniel Manivela, Verardo,
Tavião, que permaneceriam administrando a
máquina de arroz e café, pois
Tunico era mestre nisso, arrumamos as malas finalmente. Estávamos todos ansiosos e preparados para a longa
travessia da realização do sonho da protagonista Ondina Fontana
Barão, a Dina, (falecida) como era chamada. Havia na comitiva um convidado, João Romano, pai
da menina Ana Maria Romano, motivo de meus desejos para integrar o
grupo, enquanto Lilia Aparecida Barão, a graciosa "Tata", ficava em casa para
ajudar os irmãos nos afazeres. Nem bem o sol iluminou a manhã fria,
viu a partida de Maria Clorinda Barão, a "Tuína", João Romano, Rachel Barão, em homenagem a grande escritora Rachel
de Queiroz, Zuza Barão, todos sentados em bancos improvisados de
madeira na carroceria do Mercedez-Benz LP 321, dirigido pelo
gigante Antonio Barão, coberta com uma lona, uma espécie de
pau-de-arara. Tunico e Ondina colocavam nos filhos apelidos carinhosos e
entre nós, seis irmãos, a gente se trata até hoje assim, "Tata",
"Manivela", "Pirola", "Tuína", "Queiroz", Zuza,
"Dad", (falecido) "Verardo Caba Baile",
(falecido). Daniel e Douglas, no entanto, não gostam de apelidos,
mas o restante dos irmãos nem ligam. Ondina viajava na cabine, com seus cabelos nevados cobertos por um lenço,
como era de seu costume e depois de passar pelos areões até Cianorte, seguimos
rumo a Guairá, cruzando a fantasmagórica Cruzeiro D´Oeste, a nascente
Umuarama e no final da
tarde do dia 12 de julho chegamos a Guaira (PR) e antes mesmo da chegada, já
se ouvia o lamento das águas do Rio Paraná, correndo apertadas nos
grotões e penhascos de noventa metros de largura, acolhendo seis quilômetros
de largura de águas barrentas na cabeceira das quedas, que de sete (07)
só
tinha o nome, pois contamos mais de dezoito, senão mais, uma vez que
algumas nasciam nos períodos de grande vazão do majestoso Rio Paraná.
Eram as quedas adormecidas. Hospedamos no Hotel 07 Quedas e
à noite fomos visitar Jacob Sartori, ex-sócio de Antonio Barão e
Mario Trigueiro na
Destilaria Jandaia. Sartori era o responsável químico da destilaria e migrara
de Jandaia do Sul no final dos anos 50 para Guaira, desiludido
com dois incêndios na destilaria, até hoje inexplicáveis, talvez até
criminosos. A noite foi
curta, mas ouvi atentamente as histórias da região pelos contadores de
causos reunidos no seio da Família Sartori. Falavam da Guerra do
Paraguai, das trincheiras teimosamente existentes na região, o museu do
conflito, a antiga igreja dos jesuítas edificada em pedras retiradas
dos beirais das cachoeiras, os acidentes das pontes penceis, enfim,
falava-se de tudo ao lado de um lampião Alladin iluminando com suas
chamas douradas aquela casa hospitaleira. No amanhecer do dia 13,
fretamos um barco e visitamos a Ilha das Cobras do velho Max, um alemão
cordial, que segundo lendas locais, era refugiado da II Guerra Mundial.
Almoçamos na pousada do Max, visitamos seu orquidário e suas
serpentes, costumeiramente enroladas no pescoço daquele gigante viking.
Para onde o alemão ia, uma gigantesca sucuri o acompanhava, coisas que meninos,
como eu e Joseph, filho de Jacob, parecia um conto de fadas e emoções. À
tarde fizemos um pic-nic, tiramos fotografias e no entardecer voltamos
ao hotel, para no dia 14, ir visitar as cachoeiras e a pequena usina
hidrelétrica que abastecia eletricidade a cidade até as 22 horas,
quando eram desligadas. Saímos logo cedo e na travessia das pontes
penceis, olhamos maravilhados a beleza daquelas quedas, passando de um
afogadouro de seis quilômetros a uma calha de noventa metros, com a
revolta das águas com a insensatez da natureza – as águas
praticamente nem existiam, tamanha suas dores, inebriando com suas
espumas, o desespero do fim que se aproximava, pois já se falavam que
logo iriam desaparecer para pertencer ao manso Lago de Itaipu e, talvez
esse fora o motivo que Ondina Fontana Barão tanto insistia em ir
visitar aquele monumento da natureza. A semana passou e depois de fugidas na
biblioteca do museu, onde li alguns livros, descobri desconfortavelmente, a
destruição e o isolamento da República do Paraguay pelos países da Tríplice
Aliança. Entretanto, algo estranho chamou minha atenção e hoje, passados anos e
anos, lembro da Imperatriz do Paraguay: a sedutora Elisa Alicia Lynch.
Nem imagina que, um dia, vista sob uma
ótica godardiana, Elisa seria relembrada por cineastas irlandeses,
contaminados pela atmosfera da sensualidade da inesquecível heroína, inseparável do
marido Francisco
Solano Lopez. O fascínio tomou conta de mim e li folha a folha,
levando puxões-de-orelha de meu pai, sempre intrigado com minhas idas
diárias na biblioteca do museu de Guaira, “onde esse
moleque se mete todas as tardes?”, bravio com mamãe. Eu, como
era um fujão mesmo, desde os tempos da bela Jandaia, mamãe dizia,
“deixe pra lá Tunico, é coisa de moleque, vive pelas ruas jogando
bola ... ”, acalmando o gigante e assim as tardes foram
passando e terminei de ler na biblioteca do museu de Guaira a história
de Elisa e seu amado Paraguay. Lembrei de como é fácil
enganar a multidão, (Le Bonn, dizia que as multidões são irracionais) muito mais que um homem só, frase
de véspera e de proverbial
sabedoria escrita por Heródoto (484-420 a.C.), o Pai da História.
Poucos historiadores têm a graça de seu estilo, marcado pelos relatos
de acontecimentos e lendas que põe em contraste a civilização grega
e os bárbaros - egípcios, medas e persas: A frase deve ter-lhe brotado
das muitas observações que fez entre esses povos, constatando como os
grandes generais, usando a espada e a retórica, submetiam cidades
inteiras, mas expunham sua franqueza num simples diálogo com um filósofo
e por ai afora, fui lendo Eliza Lynch. A Rainha resistiu até
o último dia de batalha da Guerra do Paraguai, ocorrida em 01 de março de 1870.
FRANCISCO SOLANO LOPEZ e ELISA LYNCH – juntos finalmente hierofontes
gigantes da República do Paraguai Os soldados brasileiros cercaram o comboio do General Lopez e deram ordem de parada e rendição. Panchito Lopez, um dos filhos dos Reis Paraguaios não se rendeu, respondendo à soldadesca aliada que, um soldado paraguaio não se rende – Madame Lynch, gritou da carruagem, “entrega-te Panchito!”, mas o herdeiro do trono paraguaio respondeu “NÃO, NÃO ME ENTREGAREI A ESTES MACACOS”, referindo-se a cor negra da maioria dos nossos soldados, negros libertos, alguns alforriados, quando um valente brasileiro da tropa de Duque de Caxias, retrucou e ordenou a rendição de Pancho, ecoando na floresta o alerta: “já mandei parar, seu filho da puta!”. O Oficial Paraguaio, não suportou a desfaçatez pelo adjetivo, recordando a propaganda e preconceitos da época, tarjando a Rainha Irlandesa como cortesã dos cabarés franceses. Chico era o soldado, nascido de uma família de negros libertos e, ainda menino, empregou-se num açougue de charques de propriedade de um imigrante em São Lourenço do Sul (RS) e com 15 anos matou a punhaladas o velho italiano, porque levara uns bofetes ao ser encontrado dormindo no trabalho. Fugitivo da polícia, cruzando os pampas gaúchos, logo tomou o apelido de CHICO DIABO, que carregou pela vida. Passando por Bagé, "CHICO DIABO" deu de cara com um "BATALHÃO DE VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA", sob o comando do maragato JOCA TAVARES, (CEL) e foi convidado para integrar o contingente em luta com os paraguaios, recém invasores das terras gaúchas e do vizinho Uruguai. Na guerra, Chico foi logo promovido a CABO por bravura e passou para a história como o homem que liquidou PANCHITO LOPEZ e seu pai FRANCISCO SOLANO LOPEZ no ARROIO AQUIDABAN. Segundo a história e versões desse mundão, o "CABO CHICO DIABO", descumpriu ordens superiores e liquidou o Mariscal FRANCISCO SOLANO LOPEZ com um certeiro golpe de lança na virilha. Muitos, entretanto, consideram que um outro soldado brasileiro, desfechou um tiro mortal de revólver para liquidar completamente LOPEZ. calando de vez a epopéia e os sonhos paraguaios. Algumas versões dão conta que, ao matar o REI, Chico tinha como objetivo uma recompensa de cem libras de ouro para matá-lo, mas se sabe que essa recompensa veio com o pagamento de cem vaquilhonas, aquelas vacas virgens que não deram cria, mas tomou como botim do homem tombado, a faca de prata e ouro que o Mariscal levava quando foi morto e na qual constavam, gravadas em ouro, as iniciais "FL" (FRANCISCO LOPEZ) coincidentemente as mesmas do nome de Chico, (FRANCISCO LACERDA) (FL) tornando-se um mito naquela guerra sangrenta, um MARECHAL liquidado por um CABO voluntário, sem qualquer treinamento nas fileiras regular do exército. A lança usada pelo militar brasileiro no episódio encontra-se no MUSEU HISTÓRICO NACIONAL, RJ e interessante recordar que, naqueles idos, uma cantiga brasileira se referiu ao massacre com os versos “O Cabo Chico Diabo, do diabo Chico deu cabo". O soldado brasileiro e autor do tiro de misericórdia em LOPEZ, foi alvejado por Panchito Lopez, mas o Exército Brasileiro respondeu com fogo pesado e liquidou o menino de 16 anos. Elisa, vestida e protegida pela bandeira do Reino Unido, foi preservada e cercada de enigmas, lendas folclóricas, ganhando ingredientes sensuais na atualidade, mas há impressões negras nessa história, com o despertar da biografia de Madame Lynch. Quem não se lembra, por exemplo, do pouso da águia do Comandante Rolim Amaro - ele voava num helicóptero Robson 44 com sua secretaria Patrícia dos Santos Silva, quando uma pane no motor causou repentinamente sua queda, matando seus ocupantes. Muita gente pensou bobagens, mas Rolim levava Patrícia, uma estudiosa e apaixonada pela biografia de Madame Lynch à Cerro Corá, para pesquisas da tragédia e vida de Eliza Lynch - a secretaria tinha encontro marcado com o diplomata irlandês Michael Lillis, numa visita ao mesmo local onde Solano López foi emboscado pelas tropas brasileiras na Guerra do Paraguai (1864-1870). Assim como o diplomata irlandês Lillis, ‘Madame Lynch’ também era irlandesa, despertando naquelas pessoas e no povo irlandês, o renascimento da história da sua filha, para apagar da memória biográfica, o ranço e o preconceito que cerca a ilustrada heroína paraguaia. Assustados do atraso de Rolim e Patrícia, os pesquisadores voltaram para a fazenda do aviador em Ponta Porã, MS e souberam da queda do helicóptero que transportava a pesquisadora brasileira. Não fora aquela a primeira vez que a mulher de Solano López seria biografada em resgate de sua verdadeira história. Elisa Alicia Lynch nasceu em Cork, na Irlanda em 1834 e depois de um casamento aos 15 anos com um cirurgião e militar francês Xavier de Quatrefages, a bela irlandesa conhecera Solano López em janeiro de 1854, em Paris. O herdeiro da dinastia López, já feito Mariscal, fora à Europa adquirir barcos e armas e como estudara na França, tinha uma visão política napoleônica e seu país estava em pleno desenvolvimento, com a irradicação da pobreza e o analfabetismo, mas sem saídas para o mar, pagava-se altos tributos aos países do cone sul, para suas exportações, através do Rio da Plata, aliás, umas das razões da guerra com a Aliança Tríplice. Elisa conheceu o Marechal Francisco Solano Lopes no carnaval de 1854, quando convidada para um baile que teria lugar no Palácio das Tulherias e entre tantas personalidades convidadas pelo Imperador Napoleão III, estava um jovem militar que, apesar de não ter ainda 30 anos, trajava uniforme de marechal. Era Solano López, filho do presidente do Paraguai Carlos Antonio López. A atração recíproca do casal foi imediata, um amor à primeira vista, mas nunca se casou com o Imperador Paraguaio, talvez devido ao casamento anterior de Elisa. Tiveram quatro filhos, um deles nascido em Buenos Ayres e, na época a chamavam de “La Lynch ”, muitas vezes menosprezada como “cortesã” pelos opositores e críticos do estilo parisiense que a RAINHA impusera ao Paraguai, incentivando a música, a arte, concentrando poderes de imperatriz, mais tarde imitada por Evita Perón, criando uma atmosfera de beleza e suavidade nos palácios do Reino Paraguaio, rendendo ao casal de namorados, muitos admiradores e inimizades no seio da alta burguesia de Assunção e setores do alto clero do estamento eclesiástico. Muito se escreveu sobre os amantes e a sedução de Elisa, sempre com tons vermelhos da paixão e traços do romantismo trágico em voga nos tempos e início do florescente movimento "belle époque". Rolim e sua secretaria perseguiam esse sonho, tentando destruir a insensatez da lenda intrigante e alguns dos mitos em torno de “La Lynch”, como a história de que morrera na miséria e sepultada em Paris como indigente. Tudo fantasias inescrupulosas a inebriar o romance dos reis, pois Eliza morta aos 40 anos em 1886 morava na capital francesa em uma das casas mais luxuosas e foi inumada em um campo reservado às elites, embora seu sonho era ser ao lado do Mariscal em solo paraguaio, ferozmente recusado pelas autoridades eclesiásticas. Voltara à América quatro vezes, tentando resgatar seus bens, e um detalhe jurídico salta aos olhos hubbleanos: quando da sucessão do Mariscal Francisco Solano Lopes, Elisa sua meeira, foi espoliada e perdera todas as terras na fronteira do Brasil com a Argentina, herdadas do marido nos últimos anos da guerra. Aforou pedido de reintegração de posse dos bens do espólio na SUPREMA CORTE BRASILEIRA, num processo rumoroso, sustentando que, em 1876, os títulos foram cedidos ilegalmente ao governo de de países da TRÍPLICE ALIANÇA e, embora Elisa Lynch fosse representada pelo advogado Rui Barbosa, (1849-1923) nunca conseguiu retomar seu acervo patrimonial, uma injustiça a ser reparada, tanto que o SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL julgara procedente os pedidos da herdeira, mas a execução do julgado, muito mais complexo que o processo de conhecimento, tomou rumos inesperados pelo fracionamento das terras e empecilhos políticos, acreditando alguns, infantilmente, ser o monte-mor, um botim de guerra. Com a morte de Elisa, o sonho da fortuna ficou nas Américas. Um outro fetiche do massacre e a brutalidade da execução de Francisco Solano Lopez, foi seu sepultamento por MADAME LYNCH, conforme citação in “MEMÓRIA DE FOGO”, do uruguaio Eduardo Galeano. “Madame Lynch, rodeada pelos vencedores, cava com suas unhas uma fossa para Solano López”. A “irlandesa de cabelo dourado”, implacável conselheira de López, no dizer de Galeano, havia acompanhado o marido na frente de batalha e o destino reservou-lhe as honras de inumar o bravo guerreiro paraguaio. No dia da sua morte, LOPEZ (01/03/1870) estava cercado pelo Exército brasileiro, à razão de seis homens contra um. Em franca minoria, o lado paraguaio estava ainda combalido pela fome e seu líder humilhado com o fim e derrota próximos. Emboscado, Solano fugiu até o Arroio Aquidaban, onde foi cercado e afinal morto pelo implacável CABO CHICO DIABO. Liquidado o desafiante da ALIANÇA TRÍPLICE, os soldados chegaram até Elisa e seu filho Panchito, de 16 anos, também morto pelos soldados aliados na presença da mãe. Ela mesma cavara o túmulo de Solano e Panchito Lopez, com ajuda dos soldados, mas o ultraje fora a execução ao lado da filha menor, mas forte o bastante para exigir dos militares vencedores, entre eles o então maior e futuro Presidente Marechal Floriano Peixoto, para cessar as violações dos soldados contra o cadáver de seu companheiro. Ao receber o corpo mutilado de Solano López, exclamou entre lágrimas e soluços: "Então, esta é a civilização que vocês iriam trazer para o nosso país?" Presa pelos brasileiros, permaneceu encarcerada em Montevidéu por algum tempo, até ser deportada para a Inglaterra, graças a pressões diplomáticas de governos europeus. Paris a acolheu. Sua casa foi saqueada e incendiada e seus demais bens e propriedades confiscados pelo governo provisório paraguaio instalado em Assunção pelo comando aliado das forças de ocupação. Mitológicos ou não, esses relatos criaram uma estranha força invisível em torno de Elisa Lynch e despertara no Comandante Rolim e sua secretaria, uma aliança com os cineastas irlandeses para rodar um filme sobre a tragédia da sedutora Elisa e muita gente associou o acidente do aviador brasileiro em Cerro Corá, como vítima do mito de Elisa Lynch e o holocausto da República Paraguaia. No velha biblioteca do museu de Guaira, ouvi e tenho lembranças dos brados sonoros dos gritos de Aquidaban, "MORRO PELA MINHA PÁTRIA COM A ESPADA NA MÃO", profetizada pelo estadista e militar paraguaio Francisco Solano López (1826-1870) à beira do riacho, ferido de morte pelo soldado brasileiro Chico Diabo, antes de receber o tiro de misericórdia, disparado pelo gaúcho João Soares, embora ordens do Conde D´Eu era para capturar o Mariscal vivo. A fantástica sonoridade das palavras de LOPEZ foi evocada no dia 01 de março de 1870, marco do fim da Guerra do Paraguai. A espada de Solano López estava com a ponta quebrada, curiosidade que foi registrada pelo comandante-chefe das operações, o Conde d’Eu (1842-1922), em carta enviada a ao Imperador Dom Pedro II (1825-1891) de quem era genro, pois era casado com a princesa Isabel (1846-1921). Curiosidade maior marcou o fim dos vencedores: o pai, a filha e o genro morreram no exílio, sem espadas na mão e desprezados pela pátria que haviam adotado, o Brasil. Na “A BATALHA DAS CRIANÇAS”, em alguns trechos do Ñandepá (Nosso Fim), descrito da Batalha de Acosta Ñu (Batalha das Crianças), durante a Guerra do Paraguai, o médico John Smith, conta-se, levara do cenário do Arroio Aquidaban, um casal de crianças paraguaias, criando-os em sua fazenda, chamada Casa Blanca, em Concepción (PY), dando ao menino o nome de Bernardo e à menina Belém. Como não eram irmãos, acabaram se casando – assim escreve o autor: “A Batalha das Crianças - O odor insuportável da carne humana queimada impregna o ar enfumaçado, cheio de lamentações e de gritos histéricos de dor. É Acosta Ñu (ñu é campo, em guarani). Há poucas horas esse campo foi o palco de uma batalha sangrenta e desumana como nunca houve igual sobre a face da terra. De um lado a resistência heróica e suicida formada por cerca de 3.500 meninos guaranis, entre seis e quinze anos, com bigodes pintados a carvão na tentativa de se passarem por adultos; junto com as crianças lutavam gente ferida, mulheres e velhos. Do outro lado, um exército de 20.000 homens, entre imperialistas brasileiros, argentinos e uruguaios, comandados pelo sanguinário Conde D'Eu. O general paraguaio Bernardino Caballero, comandando 500 veteranos do VI Batalhão, formou juntamente com as crianças, uma barreira humana que tentaria impedir que as forças aliadas pudessem continuar perseguindo a comitiva do Marechal Solano Lopez. Amanhece o dia 16 de agosto de 1.869. A estratégia do exército da Tríplice Aliança foi a de formar, aos poucos, um grande círculo ao redor do agrupamento paraguaio. Ao toque do clarim, de atacar, a cavalaria imperial se precipitou rasgando o chão, e a golpe de espada ia degolando crianças e mulheres que se agarravam, no desespero da morte, nas pernas dos cavalarianos. A luta teve requintes de fúria infernal. Quando a mãe percebia seu filho ferido de morte ela própria se atirava sobre o corpo infantil e o estrangulava com as próprias mãos, para que o inocente morresse de imediato, e depois ela se jogava na ponta da lança inimiga buscando o alívio da morte. O Conde D'Eu, ao arrefecer o embate, percebeu o embuste da resistência. Ordenou, então, que incendiassem a mata onde se refugiaram e se protegiam os paraguaios. O fogo se alastrou rapidamente alimentado pela macega alta e pelo vento forte, e no meio do crepitar das línguas de fogo ouviam-se os gritos de dor e agonia, e se viam corpos envoltos em chamas correndo ao léu para logo tombarem transformados em tochas humanas. Quando finalmente a noite caiu, e o exército aliado se retirou do campo devastado, o seu Estado-Maior começou a avaliar o resultado da batalha. O fogo ainda iluminava aqueles amontoados de corpos carbonizados. No meio da mata escura, mal iluminada pelo clarão avermelhado, escutava-se aqui e acolá o lamento plangente dos agonizantes. Era o próprio lamento de uma nação exterminada em banho de sangue e de horror. Mas uma semente ficou escondida, preservada. O cheiro forte, fétido, da carne carbonizada causa tonturas ao Dr. John Smith, médico inglês a serviço dos aliados, designado para cuidar dos sobreviventes daquele holocausto. É a manhã do dia 17, e o sol apenas acinzenta o céu quando o bafo quente do incêndio faz o Dr. Smith suar e sentir constantes náuseas. Sujo de cinza e carvão, o médico parece uma alma penada vagando pelo rescaldo do inferno. Dois auxiliares enfermeiros e alguns soldados da patrulha o acompanham. Todos tapam o nariz com a mão. Tudo que ele vê é o horror do extermínio, que não conhece piedade e nem se dobra à compaixão, postas de carne pisoteadas, corpos sem cabeças, tripas fedorentas esparramadas pelo chão, e as queimaduras que fizeram a carne se soltar dos ossos como se fosse geléia derretida. A expectativa do Dr. Smith, de não encontrar alguém com vida na área do incêndio, se confirma à medida que o pequeno grupo avança pelo vasto cemitério, desviando aqui e acolá das labaredas que ainda teimam na destruição. No centro do holocausto o fogaréu destruiu tudo, mas, à medida que se afastava, foi tomando outros rumos, impelido pelo vento forte de agosto, abrindo assim clareiras com vegetação apenas sapecada, onde se refugiaram alguns poucos feridos. A meia légua de caminhada, à sombra de um frondoso pé de jatobá, param finalmente para um rápido descanso e para arejar os pulmões. Os poucos feridos encontrados, e sem nenhuma esperança de sobreviverem, foram retirados para o acampamento. As lamentações e os gritos histéricos de dor, aos poucos, foram cessando, e um silêncio de mau agouro cobriu toda aquela tumba exposta ao ar livre. Muito ao longe, nas copas dos coqueirais, pode-se ouvir o grasnido de um ou outro pássaro, viventes daquele sertão sem fim. O Dr. Smith desce o lenço amarrado na nuca e que protege suas narinas. Faz menção de se apoiar num tronco caído quando percebe que o soldado brasileiro manobra seu fuzil e aponta na direção de um magote de bananeiras. - O que viu, soldado? - Aí tem gente, doutor! - Não atire!
o gigante Mariscal Francisco Solano Lopez
aliados argentinos no campo de batalha
prisioneiros da República do Paraguai, capturados pelos soldados aliados
(1) O gigante Antonio Barão era chamado de "DAD" por Ondina Fontana Barão desde 1939, apelido carinhoso nascido quando trabalhava na FAZENDA BRASIL, propriedade de LORD SIMON JOSEPH FRASER, em Londrina, PR, significativo de "papai" dos ingleses, o "PAPI" de hoje. Minha irmã LILIA APARECIDA BARÃO, recebeu na pia batismal o pré-nome em homenagem á mulher do nobre escocês, MADAME LILIAN FRASER. "DAD" era motorista particular de SIMON JOSEPH FRASER e ambos nutriam estreita amizade e carinhos de irmãos. Mamãe era dama de companhia de MADAME LILIAN FRASER e incentivada pela nobre escocesa, colocou o nome de alguns de seus primeiros filhos em homenagem àquela mulher maravilhosa e seu marido, com inspirações inglesas. Quando LORD SIMON vendeu a fazenda e voltou à Escócia, deixou um grande vazio na população de Londrina e meu pai desiludido retirou-se para Jandaia do Sul em 1940, para desbravar com seus pais e irmãos, o SÍTIO DA PEROBA, contribuindo para a colonização do Norte do Paraná, tornando-se com seus colaterais e ascendentes, lendas vivas, pelo destemor e bravura dos grandes homens. . (2) Após a derrota do movimento paulista, em 1924, um grupo de combatentes recuou para o interior sob o comando de Miguel Costa. No início de 1925 se reúne no oeste do Paraná com a coluna do Capitão Luís Carlos Prestes, que havia partido do Rio Grande do Sul. Sempre com as forças federais no seu encalço, a coluna de 1.500 homens entra pelo atual Mato Grosso do Sul, atravessa o país até o Maranhão, percorre parte do Nordeste, em seguida retorna a partir de Minas Gerais.Refaz parte do trajeto da ida e cruza a fronteira com a Bolívia, em fevereiro de 1927. Sem jamais ser vencida (venceu todas as batalhas), a coluna Prestes enfrenta as tropas regulares do Exército ao lado de forças policiais dos Estados e tropas de jagunços, estimulados por promessas oficiais de anistia. Acredita-se que até o cangaceiro Virgulino, o Lampião, foi convocado para derrotar a Coluna Prestes.Sobreviventes da Coluna Invicta, já em fevereiro de 1927, já tivera seu destino selado. Encerrou-se um dos maiores feitos de militares brasileiros e ele, PRESTES, se revelara como uma verdadeira raposa do Sertão. A indignação de Prestes com a miséria e a iniqüidade social existentes num país prodigioso como o Brasil, nunca mais o abandonou. O rebelde virou um motim feito homem.Abordado no exílio pelo então secretário-geral do Partido Comunista, Astrogildo Pereira, ele rapidamente passou a dominar a literatura marxista posta ao seu alcance. No entanto, sua entrada oficial no PC só foi oficializada sete anos depois, em 1934, por insistência do Presidente do Comitê Executivo da Internacional Socialista, Dimitri Manuilski.Da Bolívia, Prestes seguiu para Buenos Aires, travando contato mais estreitos com os conspiradores da revolução que se tramava contra a República Velha. Prestes denunciou as promessas da Aliança Liberal (formada pelas oligarquias dissidentes do RS e da Paraíba), tais como o voto secreto, a liberdade eleitoral, a honestidade administrativa, como sendo incapazes de "interessar e despertar a grande maioria da nossa população". No Manifesto de Maio de 1930, conclamou o povo à realização da revolução agrária e a arregimentação das forças para "a luta antiimperialista realizada e sustentada pelas grandes massas da nossa população".O rompimento de Prestes com seus outros companheiros da coluna, como Cordeiro de Farias, João Alberto e Juarez Távora, foi definitivo. Desde então, em vários momentos da história republicana, eles se reencontrarão, mas em trincheiras opostas.Especula-se até os nossos dias se os destinos da Revolução de 30 não teriam sido outros, bem mais profundos e radicais, se ele tivesse aceitado SER o seu comandante militar (opinião de Maria Cecília Spina Forjaz, in "Tenentismo e política", 1977). Vargas nunca se celebrizou como chefe de tropas. Era um cérebro eminentemente político. Assim sendo, talvez na presença de Prestes ao lado dele, de Vargas, pudesse ter acelerado certos projetos sociais de uma maneira mais eficaz ou, na dialética tão comum aos processos revolucionários, o líder militar poderia ter-se convertido no líder político.Para ligar "O Cavaleiro da Esperança" à Aliança Liberal, o projeto Varguista de chegar ao poder, Getúlio remeteu ao líder da coluna o valor de cem mil pesos argentinos para que PRESTES aderisse a sua causa. Prestes depois doou esses valores à Internacional Comunista, cuja sede ficava em Montevidéu. O fato é que Prestes, negando-se a participar da revolução proposta pelos emissários de Getúlio, ficou de fora do acontecimento político e social mais significativo do Brasil contemporâneo: a Revolução de 1930, da ALN. Foi um dos tantos erros políticos dele. A Raposa do Sertão se mostrava arredia em participar das confabulações palacianas, sentindo um estranho no ninho em meio àqueles políticos profissionais. Deste modo, ao eclodir o movimento de 03 de outubro de 1930, "O Cavaleiro da Esperança", se encontrava não só rompido ideologicamente com seus ex-companheiros da coluna, como totalmente afastado da revolução conduzida por Vargas. Ainda em Buenos Aires, estava totalmente isolado, sem que tivesse qualquer elo de ligação significativo com o Brasil. Deste modo, só lhe restou aceitar o convite dos soviéticos, INCLINANDO AO MARXISMO, quando rumou para a RÚSSIA em 1931, somente voltando ao Brasil depois de anistiado pelo grande Presidente João Batista Figueiredo, um gaúcho como o CAP PRESTES.(3) "AS MULHERES DA RETAGUARDA", edição Universidade São Francisco, laurel e obra de Zuza Barão em 1986, pela descrição das amantes dos homens da coluna, edição interna da universidade em concurso entre alunos e professores.
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